Brazil
October 2, 2025

Avanços em melhoramento genético elevam a qualidade industrial do trigo brasileiro e ampliam sua competitividade junto aos moinhos
Do ponto de vista genético, a cultura do trigo avançou significativamente nos últimos 10-15 anos. Para o agricultor, as evoluções em produtividade e sanidade frente às principais doenças são nítidas. Mas uma outra evolução crucial para a cultura passa quase despercebida para o produtor: as melhorias na qualidade industrial do trigo.
Para a indústria moageira, essas melhorias têm entregado um produto cada vez mais preparado para atender às suas importantes demandas – que, no fim das contas, são de interesse próprio do agricultor, afinal, determinam a liquidez que o produtor terá com a cultura do trigo.
A qualidade industrial do trigo brasileiro atualmente
Os contínuos esforços em melhoramento genético possibilitaram um relevante aumento da qualidade industrial do trigo brasileiro. Quem afirma isso é Marta Accorsi, diretora administrativa e comercial do Moinho Vacaria, localizado na cidade de Vacaria, no Rio Grande do Sul.
— Por volta de 2010, 2011, nosso moinho não tinha trigo panificável. Mas, graças à genética e à evolução dos trigos gaúchos, pudemos dar um salto de qualidade. De 2010 para cá, o trigo está melhorando cada vez mais. Acho que chegamos em um nível de qualidade que não deixa nada a desejar para o trigo argentino — relata.
Trigo do Cerrado evolui em quantidade e qualidade
Essa evolução tem trazido um perfil diferente ao trigo brasileiro. Historicamente, a cultura é associada a regiões frias, que se tornaram tradicionais no cultivo do cereal – a exemplo, sobretudo, do Paraná e Rio Grande do Sul.
Nos últimos anos, contudo, cresce a quantidade e qualidade de cultivares de trigo bem adaptadas a regiões tropicais. Com isso, a cultura demonstra um potencial de expansão para o Cerrado brasileiro. Esse fator, amplamente discutido quando o assunto é autossuficiência nacional na produção de trigo, também é resultado de uma crescente melhoria na qualidade industrial de variedades presentes na região.
De acordo com Carolina Bernardi, assistente logística, de qualidade e comercial da J.Macêdo – empresa do setor alimentício que possui moinhos em quatro estados brasileiros –, a percepção sobre o trigo do Cerrado mudou amplamente.
— Atuamos com trigo cultivado no sul de Minas Gerais e, quando iniciamos as atividades, trabalhávamos com duas a três cultivares. Hoje, conseguimos trabalhar com um número muito maior — conta.
Carolina aponta dois principais aspectos que ajudam a explicar a melhoria do trigo produzido nesta região. “Hoje há uma maior facilidade no controle da brusone, o que é muito importante. E houve também uma evolução no falling number¹, pois quando se tinha uma cultivar muito suscetível à germinação na espiga, era fácil de termos problemas nesse quesito. Há alguns anos nós não percebemos mais isso”, explica.
Quais características do trigo nacional mais evoluíram?
Para Carolina, o falling number foi justamente o parâmetro que mais passou por transformações no trigo nacional nos últimos anos.
“Na minha visão, o que mais evoluiu foi a estabilidade do falling number¹ quando ocorrem intempéries. A cor da farinha também melhorou, pois hoje já temos até trigos melhoradores com cor clara, apesar de serem restritos a uma ou outra cultivar”, menciona.
A cor da farinha, mencionada por Carolina, também foi apontada por Marta como um relevante ponto de melhoria do trigo.
“Para mim, as principais evoluções são na cor da farinha, força de glúten (W), proteína e estabilidade do grão. Isso representa uma evolução do trigo”, pontua.
Quais demandas dos moinhos ainda precisam de melhorias?
É evidente que os esforços em pesquisa e melhoramento genético mudaram a qualidade do trigo brasileiro. Entretanto, este processo de melhorias é contínuo, e muitas evoluções precisam seguir acontecendo.
Marta e Carolina, representantes de moinhos que, em conjunto, cobrem as principais regiões tritícolas do país, destacam algumas demandas da indústria moageira para a qualidade industrial do trigo nacional.
- Homogeneidade dos lotes de trigo: devido, sobretudo às limitações de armazenagem no país, a uniformidade dos lotes segue sendo uma das principais demandas da indústria, visando uma manutenção da qualidade industrial da cultivar ali armazenada e, por consequência, um aumento da qualidade do produto final.
- Cor da farinha: para o consumidor brasileiro, algumas características são fundamentais no pão, sendo a principal delas a cor clara. Atendendo a essa demanda, os moinhos brasileiros buscam se adaptar e oferecer pães mais claros. De acordo com representantes de moinhos, apesar da cor de farinha ter evoluído de forma considerável nos últimos anos, este fator ainda apresenta possibilidade para evoluções.
- Maior produtividade para a moagem: quando se ouve falar em produtividade do trigo, é natural associarmos esta característica ao quanto o produtor colherá na lavoura. Para os moinhos, entretanto, produtividade também é a quantidade de farinha obtida a partir da moagem do trigo limpo e seco. Alguns fatores, como o peso hectolítrico (PH) e a dureza do grão, podem influenciar no rendimento do grão na moagem.
Conclusão
O trigo brasileiro avançou de forma consistente em produtividade, sanidade e qualidade industrial. Esse progresso é resultado dos esforços contínuos de melhoramento genético, somados ao trabalho da assistência técnica e empenho dos moinhos. Esses fatores fazem do trigo brasileiro uma cultura cada vez mais produtiva, estável e competitiva.
Segundo Marta, sua expectativa é que o melhoramento genético siga gerando frutos para o trigo brasileiro.
— Acredito que o trigo continue evoluindo em genética, porque acho que sempre há aspectos para melhorar, seja para proporcionar ainda mais produtividade, sanidade e rentabilidade ao agricultor, como também para gerar mais produtividade e melhorias para os moinhos — resume.
¹A análise de falling number (ou número de queda) é um dos principais testes de qualidade do trigo e indica, sobretudo, a velocidade de quebra do amido e fermentação da farinha, fatores que interferem na qualidade do produto final.